Ideias de jogo e ambições do novo técnico alviazul

Júlio quer que a primeira chance como treinador efetivo seja “um salto sem volta” na carreira
Fotos: João Paulo Mileski
Ideias de jogo e ambições do novo técnico alviazul
A participação nas Copas Serrana e RS marcarão um momento de recomeço para o Esportivo, com reformulação no departamento de futebol, comissão técnica e plantel. O ex-auxiliar Júlio César Nunes, por sua vez, terá a chance de começar. Aos 29 anos, o caxiense terá sua primeira oportunidade como treinador efetivo à frente de uma equipe profissional. Os prognósticos são bastante desafiadores, já que o limitado orçamento do clube deve viabilizar não mais do que uma equipe modesta, com jogadores jovens e desconhecidos. A motivação do iniciante treinador, contudo, é proporcional ao desafio.
Nessa entrevista ao SERRANOSSA, Júlio demonstra que, apesar da pouca idade, está bastante municiado de experiência sobre conceitos de jogo. O perfil é de um técnico adepto ao futebol moderno, com ideias além das convencionais, e que ressalta ter aprendido muito com Luis Carlos Winck, com quem trabalhou por dois anos, no Esportivo e no Passo Fundo. Se dará tão certo quanto o principal treinador da história recente do alviazul, não se sabe. Confiança, no entanto, não falta. “Pretendo dar esse salto para não voltar mais”, aspira.
SERRANOSSA - Você esperava por essa oportunidade nesse momento?
Júlio César Nunes - Eu já estava me preparando para ter essa oportunidade. Talvez as pessoas não conheçam toda a minha trajetória, mas desde 2010 eu venho tendo trabalhos no profissional, como auxiliar e interino em algumas situações. Acredito que um momento muito importante foi quando me desliguei totalmente da base e passei a ser somente auxiliar do Esportivo, em 2012. Aprendi muito com o Winck, conquistamos o título da Divisão de Acesso e depois fizemos uma boa campanha no Gauchão, quando eliminamos o Lajeadense, que era muito favorito, na casa deles, e fizemos uma semifinal contra o Inter. Depois disso eu saí, fui para o Passo Fundo e foi uma experiência muito interessante porque eu pude vivenciar outro clube e conhecer outras pessoas, outros dirigentes. Aceitei o convite para voltar ao Esportivo com o objetivo de ter novos contatos, conviver com novos profissionais e agregar no meu currículo novas tendências e metodologias. Trabalhei com o Emerson Ávila, aprendi muito com ele e toda a comissão técnica, com o Maia (preparador de goleiros), com o Gerson Rocha (preparador físico). Se a oportunidade viesse agora, como aconteceu, ótimo; se fosse mais na frente, não haveria problema. Mas eu já vinha me preparando para esse momento e me sinto pronto para a incumbência que o clube me deu. Agradeço ao Esportivo por ser o clube que me abriu as portas, lá em 2010, e agradeço, agora, pela oportunidade e confiança. Pretendo dar esse salto para não voltar mais.
SERRANOSSA - Como funcionário do clube, você trabalhou com treinadores como Hélio Vieira, Nestor Simionato, Luis Carlos Winck, Flávio Campos e Emerson Ávila. Com quem aprendeu mais?
Júlio - Eu acho que é um somatório. Vou dar o exemplo de alguém que admiro muito e muitas vezes, quando posso, acompanho de perto, em treinos e jogos: o Roger (técnico do Juventude). É um cara que teve uma trajetória parecida com a minha. Claro, ele foi um grande jogador, mas depois foi estudar, se formou em educação física e foi ser auxiliar do clube. E quando você é auxiliar do clube, você trabalha com vários treinadores e vai pegando o que cada um tem de melhor. Eu não tenho como não citar o Winck, porque trabalhei dois anos com ele e trata-se de um exemplo de profissional e pessoa. O Ávila me agregou muito na parte tática, mas com o Winck aprendi muito sobre comando, postura, lidar com situações do dia a dia, com direção, comissão, atletas. O treinador também é um gestor, ele tem que gerenciar pessoas, e o Winck faz isso muito bem e eu me espelho muito nele. Mas aprendi um pouco com cada um, a gente vai somando tudo e definindo o próprio perfil.
SERRANOSSA - Você profere cursos sobre táticas, estratégias e preparação de jogo. Agora, na prática, tem algum modelo ou sistema que planeja adotar ou isso depende dos jogadores que terá à disposição?
Júlio - Não tem como falar de modelo e sistema sem antes começar pela montagem do grupo. Ela é importantíssima em um processo de equipe. Primeiro, porque você está inserido em um clube que tem suas tradições, suas raízes, e a história do Esportivo mostra que sempre foram equipes aguerridas, competitivas, e a gente não pode fugir disso. Eu estou no futebol gaúcho, em um clube de quase 100 anos, com uma grande história. Então pretendo, sim, mesmo com uma equipe jovem, formar um time competitivo, com jogadores que queiram crescer, buscar o seu espaço. Eu tenho um arsenal de nomes por já ter trabalhado em outros clubes e acompanhado muitos jogos de base. Só nesse ano, contando os 15 jogos de Gauchão, já observei cerca de 35 partidas, entre juniores, juvenis, Segundona, Divisão de Acesso, e outros. Tenho uma lista de seis ou oito nomes por posição. Partindo disso, para responder a sua pergunta, a partir do momento em que formarmos uma equipe com os atletas que temos em mente, vamos montar o modelo de jogo. Hoje eu vejo o modelo de jogo muito mais importante do que o sistema, porque são princípios que você vai implantar na sua equipe, na organização ofensiva e defensiva, com subprincípios, o que a equipe vai fazer quando perder a bola lá na frente, por exemplo. Tudo isso o atleta tem que saber, e aí, claro, tem um sistema prático que vamos trabalhar. Algumas pessoas se apegam muito a sistema e esquecem que tem coisas muito mais importantes dentro do jogo.
SERRANOSSA - Independente do que você tiver à disposição, tem algum desenho tático preferencial?
Júlio - Eu gosto de trabalhar com uma primeira linha de quatro. O formato de meio e setor de ataque, isso varia muito. Mas não abro mão de jogar com uma linha de quatro atrás, não sou adepto a três zagueiros. Não gosto de 3-5-2 ou 3-6-1, não que daqui a pouco, em uma eventualidade ou necessidade, eles não possam ser usados, mas não gosto. Acredito que é uma tendência do futebol mundial jogar com uma linha de quatro atrás, você não vê mais equipes ou seleção jogando com três zagueiros, acho que você fica mais protegido com uma linha de quatro bem postada. Mas tem que haver um equilíbrio, hoje o time tem que atacar com os 11 e defender com os 11. O que é isso: você colocar, no seu atleta, a importância de todos estarem fazendo parte do processo defensivo quando têm a bola, e todos fazerem parte do momento ofensivo. Não são apenas os meias e atacantes, os que ficam atrás da linha da bola também estão participando do momento ofensivo.
SERRANOSSA - O Winck não gostava de centroavante...
Júlio - Não, não gostava. Eu particularmente gosto de ter um jogador de área, independente do sistema. Por exemplo, se eu jogar no 4-4-2, independente do meu formato de meio de campo, vou querer que o meu ataque tenha um jogador de lado e um de área. Claro, dependendo do jogo, se estou sem o meu camisa nove, em uma situação diferente, nada impede que possamos jogar com dois jogadores de velocidade. Mas em um geral, se você me perguntar o que eu prefiro, prefiro o nove. Em um 4-2-3-1, gosto de ter um nove também, um do lado direito e um do lado esquerdo de velocidade, mas um centralizado que é o nove. Esse deve ser um jogador versátil, com mobilidade, que também saia da área, que faça movimentação. Eu não gosto daquele nove ‘paradão’.
SERRANOSSA - Você acompanha com assiduidade jogos no interior do Estado, em várias categorias e divisões. Tem uma receita para vencer no futebol gaúcho ou a qualidade prevalece?
Júlio - Olha, eu vou falar mais especificamente do campeonato que vamos jogar e do qual já participei em três oportunidades. Ao contrário do que muita gente diz, tem equipes muito fortes na Copinha. O Passo Fundo de 2013 é um exemplo, a equipe da Copinha era quase a mesma do Gauchão, com jogadores como Xaro, Bruno Grassi, Garroni, Mateus Santana, Lenilson, Hyantony, entre outros. É complicado falar em receita, mas é um futebol mais de contato, de primeira bola. Não abro mão, no entanto, de uma equipe que jogue. Que sem a bola seja muito aguerrida e que busque recuperar a posse incessantemente, encurtando espaço; e com a bola, que jogue, que a coloque no chão e faça o jogo andar. Não sou muito adepto daquela equipe que joga só fechada, em contra-ataques, esticando bola. Eu gosto de times que ditem o ritmo e fiquem com a bola.
Quatro jogos como interino
Júlio César Nunes jamais foi técnico efetivo de uma equipe profissional, mas tem quatro experiências na carreira como interino. Em 2006, orientou o Juventude na derrota para o Guarany de Bagé, por 1 a 0, pela Copa RS. Em 2010, assumiu o lugar do treinador suspenso no comando do Campo Mourão contra o Roma de Apucarana pela segunda divisão paranaense. Acabou dando sorte e sua equipe venceu por 2 a 1. Em 2012, Winck decidiu que Júlio prepararia o Esportivo para amistoso contra o Juventude, vencido pelo alviazul por 2 a 0. Já neste ano, em meio à saída de Emerson Ávila e a chegada de Flávio Campos, coube ao então auxiliar comandar o Esportivo em duelo contra o Cruzeiro, em Gravataí, pelo Gauchão. A partida acabou empatada em 1 a 1. 
FONTE:http://www.serranossa.com.br/editorias/esporte/ideias-de-jogo-e-ambicoes-do-novo-tecnico-alviazul/
Reviewed by Júlio César on 23.6.14 Rating: 5

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